Saúde

Leite: vilão ou não?

03.4
Dra. Patrícia Peixoto

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lacteos

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O leite é realmente vilão do emagrecimento?

Nos últimos tempos, aumentou o número de pessoas retirando leite e derivados da dieta, por terem recebido diagnóstico de alergia as proteínas do leite ou intolerância a lactose e relatando que com isso emagreceram. Diante disso, muitos passaram a fazer o mesmo, ainda que sem um diagnóstico médico. Afinal, já que emagrece… Mas, o que há de verdade na afirmação de que o leite e seus derivados, devido à presença da lactose e de proteínas como a caseína, fazem mal ao organismo e contribuem para o ganho de peso, devendo ser retirados da dieta?

1 – O que é a LACTOSE?

É uma carboidrato (açúcar) encontrado no leite. Mais especificamente, trata-se de um dissacarídeo, formado pelos monossacarídeos glicose e galactose. Ele está presente no leite e seus derivados. E em torno dele que se tecem teorias de que o leite faz mal.

2 – Por que o leite poderia levar ao ganho de peso?

Quem defende esta conduta acredita que o açúcar (lactose) e as proteínas (caseína e betalactoglobulina) dos laticínios possam provocar processos inflamatórios deixando o corpo vulnerável ao ganho de peso, além de poder provocar alterações tais como flatulência, diarréia e dores abdominais. O argumento para esta medida é que o sistema digestivo humano adulto não seria capaz de processar o leite.

3 – O que os estudos científicos e pesquisadores dizem?

O leite faz parte da dieta do homem há milênios. As populações com acesso a ele desenvolveram ao longo dos anos uma mutação para produzir uma enzima chamada lactase, que digere a lactose, favorecendo a adaptação humana para o consumo do leite, mesmo na idade adulta. Entretanto, existem duas situações em que a pessoa pode ser orientada a reduzir ou mesmo excluir o leite e derivados da dieta:

– INTOLERÂNCIA A LACTOSE ( não existe alergia a lactose, pois sendo um açúcar ela não tem alergenicidade) – em algumas pessoas, a lactase diminui após o desmame, dificultando a digestão da lactose, e gerando sintomas como distensão abdominal, flatulência, dor abdominal e diarréia ou redução da mobilidade intestinal e constipação quando a pessoa consome produtos que contenham lactose. Para estas pessoas, a retirada ou redução da lactose da dieta é indicada. Na prática, vemos casos em que pequenas quantidades de leite e derivados são consumidos sem que a pessoa tenha sintomas. Além disso, o indivíduo pode também usar a enzima artificial lactase, quando for consumir alimentos que contenham lactose, para conseguir digeri-la.

– ALERGIA AS PROTEÍNAS DO LEITE ( caseína e betalactoglobulina) – pessoas que têm sintomas desde a primeira infância, e que se manifestam no sistema gastrointestinal, sistema respiratório, sistema nervoso central, pele, havendo casos mais graves em que a pessoa pode apresentar até choque anafilático. Nestes casos, a pessoa não pode consumir alimentos que contenham estas proteínas, e o diagnóstico passa necessariamente pela avaliação com alergista e gastroenterologista, pois são necessários exames específicos.

4 – Como saber se você se enquadra em algum destes casos?

Como cerca de 70 % da população no mundo apresenta algum grau de intolerância a lactose, se você apresenta algum dos sintomas listados acima, procure um médico gastroenterologista ou alergista e relate-os. Este é o primeiro passo. Somente uma investigação médica, que será conduzida de acordo com cada caso, pode determinar se há intolerância ou alergia. Depois disso, você receberá orientações e tratamento adequado, que envolve a ida ao nutricionista para elaborar um plano alimentar que não deixe faltar elementos que o leite fornece, como o cálcio, por exemplo. Se você não apresenta intolerância ou alergia, não há indicação de retirar o leite e derivados da dieta. Isso não levará a perda de peso. Inclusive, estudos recentes comprovaram uma associação positiva com o consumo de alimentos fontes de cálcio e a redução do peso, principalmente perda de gordura abdominal.

5 – E os benefícios do leite?

– o leite, quando metabolizado, produz uma substância chamada ácido linoleico conjugado (CLA) que é fundamental para a prevenção de alguns tipos de câncer, como de mama e próstata;

– Ele é a mais importante fonte de cálcio presente na alimentação humana. De fato, não é o único, mas é muito difícil você encontrar cálcio em um vegetal que seja absorvido com facilidade pelo organismo, como o cálcio encontrado no leite. Isso ocorre porque os componentes presentes nos vegetais, tais como fitatos (farelo de cereais), oxalatos (espinafre, nozes) e taninos (chás) diminuem a biodisponibilidade de cálcio nestes alimentos;

– A grande quantidade de proteína presente no leite é fundamental para a formação de tecidos, importante para o processo de crescimento das crianças, bem como na recuperação muscular de pessoas que fazem atividade física;

– No caso das gestantes, algo curioso acontece: 45% das lactantes intolerantes à lactose perdem a sua intolerância durante o período de gravidez e de lactação, passando a produzir a lactase para digerir a lactose;

– Para as crianças, além de fornecer a quantidade de cálcio necessária para o crescimento, o consumo regular do alimento contribui para reforçar o sistema imunológico, graças às proteínas do soro do leite.

* Há um projeto de lei aprovado no Senado que obriga os fabricantes a informar, no rótulo do alimentos, a presença de lactose e caseína. Além disso, alimentos que tenham remanescente de lactose e caseína também deverão ter isso informado no rótulo.

Como em tudo na vida, vale o bom senso. Se você acredita que ao consumir leite e derivados sente-se mal, ou mesmo tem dúvidas se faz parte do grupo de intolerantes à lactose ou alérgico ás proteínas do leite, procure um médico. Retirar este alimento da dieta sem um motivo real não faz muito sentido.

Pense nisso!

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