Moda

Secondhand em primeiro lugar

04.11
marinabruno
postado por marinabruno

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O setor de usados dispara no Brasil e no mundo, alterando os modelos de produção e de consumo

O termo secondhand que vem diretamente do inglês e significa “segunda mão”, é utilizado para o setor de vendas de peças usadas, semi-novas ou até novas, mas que já tiveram um primeiro dono. Preocupações com o consumo desenfreado, críticas à indústria têxtil que é uma das mais poluentes do mundo e a instabilidade econômica trazida pela pandemia, são fatores que colaboram com a alta do consumo em brechós. O movimento vem impulsionado pelas Geração Z e Millenials, que são as mais adeptas da tendência de economia compartilhada, mais conscientes em relação ao impacto socioambiental das marcas que consomem e expressam sua individualidade por meio de customizações e autenticidade.

Garimpar em brechó tem se mostrado muito vantajoso, uma vez que é possível garantir por um preço mais baixo, roupas em bom estado. Além disso, é possível encontrar modelos únicos de itens que não são mais fabricados e acabam se tornando raros. Outro ponto que merece atenção, é lógico, é a questão ambiental. Sabe-se que a moda não é a queridinha do meio ambiente e vive uma busca pelo equilíbrio. Se por um lado algumas marcas escolhem não usar mais o couro animal, por outro, o famoso couro ecológico não tem nada de sustentável! É muito mais vantajoso comprar uma jaqueta de couro verdadeiro em brechó, pois ela já foi produzida e já está no mercado, do que incentivar a produção de peças de roupas que além de sintéticas, têm pouca durabilidade.

Tudo indica que as pessoas têm preferido ter menos peças no guarda-roupa mas de melhor qualidade, reduzindo o consumo excessivo e passando assim, a cuidar melhor do que já tem. Segundo uma pesquisa da consultoria internacional Boston Consulting Group, há três desejos que influenciam atualmente na escolha dos consumidores: 85% dos compradores de segunda mão participam para reduzir o consumo excessivo, trocando a moda rápida por itens mais duradouros e de melhor qualidade; 70% dos consumidores estão preocupados com a durabilidade e afirmam que a existência do mercado de secondhand os estimula a cuidar melhor das peças que possuem; e 60% das pessoas que vendem suas peças, dizem que teriam apenas descartado ao invés de dar uma segunda chance às roupas.

A antropóloga Thaís Nascimento é adepta da prática e relata que sempre comprou em lojas físicas mas com a pandemia e o boom de lojas virtuais, aumentou o seu consumo on-line. “Me atrai a possibilidade de comprar uma peça diferente que não se encontra mais em lojas por serem antigas e ao mesmo tempo, peças com preços muito legais. Tem também a filosofia do consumo consciente que pra mim, também é importante.”

A economia circular já estava em alta bem antes da pandemia, mas não há como negar que o momento trouxe além de incertezas financeiras, o debate sobre consumo e suas variadas formas de existir. O termo “slow fashion” está presente não apenas na rotina de marcas, que ao invés de lançarem coleções a cada estação, escolhem privilegiar a produção artesanal e em menor escala, mas também habita a realidade do consumidor, que escolhe comprar menos e adquirir o que já foi produzido para não ser descartado.

Um estudo sobre o Consumidor do Futuro 2023, realizado pela WGSN, empresa especializada em previsões de comportamento e consumo, indica que a percepção do consumidor em relação a produtos e experiências mudou, redefinindo hábitos e prioridades na hora de comprar. A empresa aponta quatro novos perfis de consumidores. São os Antecipadores, Novos Românticos, Inconformados e Condutores. Os Antecipadores demonstram fadiga emocional e incertezas em relação ao futuro, buscando cautela, estabilidade e segurança. Já os Novos Românticos têm um desejo profundo de se reconectar às emoções e estão muito preocupados em redefinir os coletivos comunitários. São dois perfis que demonstram que a busca por um consumo consciente não é tendência passageira e deve aumentar daqui pra frente.

A jornalista e empreendedora Vanessa Barone, é dona do Brechó Descomplique, na cidade de São Paulo e relata que seu negócio começou há cerca de 4 anos. “Tudo começou em casa, com vendas on-line, mas o negócio foi crescendo até que foi necessário ter um espaço físico, onde hoje fica o acervo do brechó e meu escritório.” Com relação ao perfil das clientes, Vanessa relata que com a pandemia houve um aumento de um público novo. “Na pandemia surgiram novas clientes, gente que não estava acostumada a comprar em brechó e nem on-line. Um público que às vezes nem sabia acessar o site, com pouca experiência de compras nesse formato.”

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Vanessa Barone, proprietária do Brechó Descomplique.

A preocupação ambiental do público consumidor estimula o consumo consciente e consequentemente aumenta a busca por itens de segunda mão. De acordo com a pesquisa da consultoria internacional BCG, preocupações ambientais são um fator decisivo no crescimento do mercado. Esse processo que já estava a caminho acabou sendo acelerado pela pandemia. Em 2020, 70% dos entrevistados disseram se sentir forçados a comprar produtos usados para se tornar mais sustentáveis, em comparação a 62% em 2018. No Brasil, plataformas como Enjoei, Etiqueta Única, Reuse e Troc são cada vez mais acessadas por consumidores em busca de peças únicas ou vintages, prontas para contar novas histórias. A Troc, inclusive, acaba de ser comprada pelo grupo Arezzo & Co que está atento aos movimentos do mercado.

A consultora de imagem, Juliana Lenz, que é sócia do Personal Brechó na cidade do Rio de Janeiro, afirma que: “O desapego aumentou muito durante a pandemia. As pessoas estão simplificando a vida e diminuindo o que tem no armário.” Juliana faz uma seleção criteriosa das marcas e peças que entram para a sua loja e o sucesso do seu negócio que já existe há 13 anos, mostra que o setor de segunda mão também tem entrada no mercado de luxo. Recentemente a Gucci firmou parceria com a plataforma internacional TheRealReal para revenda de peças, inclusive, colocadas à venda pela própria marca italiana.

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Juliana Lenz, sócia do Personal Brechó.

 

Segundo a pesquisa da BCG, o mercado global de segunda mão deve ter um crescimento anual de 15% a 20% nos próximos cinco anos. Ainda de acordo com a pesquisa, o percentual de peças usadas nos armários das pessoas deve pular de 21% em 2020 para 27% em 2023. Sobre o mercado de luxo, 62% dos entrevistados afirmam estar mais dispostos a comprar de marcas que fazem parcerias com empresas de segunda mão.

A era da associação de brechós à naftalinas ou roupas de vovó ficou para trás. O que o mercado aponta no momento é que o preconceito não tem vez e que há um desejo crescente dos consumidores por guarda-roupas que sejam únicos, de qualidade e sustentáveis.

 

 

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